Portugal tem-se, compreensivamente, perturbado com o rumor trágico-viral de uma baleia assassina. No dizer da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e Adolescência (APPIA) “não é um jogo nem um desafio mas um esquema de manipulação e de abuso de menores” perverso, traduzido num ataque insidioso e silencioso que tem por alvo os nossos adolescentes.

Numa geração em que as redes sociais e as comunicações tecnológicas imperam, está garantida, à partida, a rapidez e o impacto da difusão, bem como a distância aos pais.
Fenómeno relativamente isolado e circunscrito a grupo de risco, a verdade é que estas notícias funcionam como chamada de atenção/alerta para o estado da saúde mental de crianças e jovens em Portugal. As estatísticas revelam o aumento de queixas associadas a automutilações. O que se passa com os tempos em que vivemos?

O conceito de Saúde Mental é mais abrangente do que a mera ausência de doença, prende-se com vários fatores, está correlacionada com o próprio desenvolvimento, sofrendo influências do ponto de vista sociocultural, traduzindo-se na adaptação a mudanças, o enfrentar crises, o estabelecer relações satisfatórios com outros, descobrir um sentido para a vida

Crescer é um processo dinâmico, onde o conflito, o medo e o risco estão presentes. A adolescência, em particular, é um momento de crise no ciclo de vida, onde as questões da identidade (“quem sou”?) e do desafio se colocam de forma intensa e exuberante.
Assim, é natural que o crescimento se faça acompanhar por sofrimento emocional e, para adolescentes com maior vulnerabilidade, a probabilidade de adoecer estar aumentada; mas também por isso, as medidas de prevenção são tão importantes, que passam pela atenção, pela escuta e pela proximidade.

Num tempo em que o acesso a muita informação, e desde muito cedo, é enorme, há necessidades que se prendem com a própria imaturidade psicoafetiva das crianças e adolescentes que nem sempre se compadece com o ritmo destas aquisições. Para além disso, as mudanças verificadas ao nível da organização social dos tempos e espaços de relacionamento, bem como as transformações nas famílias, deram origem a uma educação menos presente, mais permissiva e, em grande medida, menos protetora e menos estruturante do processo de crescimento mental.

As dúvidas e o sofrimento emocional das crianças e jovens, cujas formas de expressão traduzem as próprias transformações sociais, deverão ser sempre entendidos no seu valor de comunicação e de adaptação a uma realidade interpessoal. Ou seja, o seu comportamento deve interrogar os adultos responsáveis (pais/familiares próximos/agentes educativos/adultos significativos) sobre o seu papel, apelando a uma compreensão efetiva para além do óbvio, tornando a escuta e a comunicação centrais nesse contexto.

Os laços afetivos estáveis com as figuras de referência têm como função assegurar a humanização do crescimento das novas gerações, onde se desenham a identidade, a confiança, a empatia (a compreensão do sentir, distinto da simpatia), a autoestima, a pertença.

RECOMENDAÇÕES:

  • É fundamental o trabalho de parceria entre a Família, a Escola, a Saúde e as Entidades de Segurança Pública.
    Ao nível da prevenção (especialistas de diferentes áreas são unânimes em considerar que estas são as ações mais importantes e eficazes), melhorando a capacidade dos jovens para as competências socioemocionais, desenvolvendo fatores protetores:
  • Abordar junto dos adolescentes/jovens este fenómeno é fundamental. A repressão ou evitamento do tema, por parte dos adultos, é mais prejudicial do que benéfica (devolvem uma ideia de fragilidade e de inconsistência);
  • Temáticas que consideramos deverem ser abordadas:
    – a comunicação pais-filhos,
    – o risco da utilização permanente dos telemóveis e das redes sociais,
    – as relações entre pares,
    – o sentido e o objetivo da vida,
    – como lidar com situações de maior ansiedade,
    – ouvir o que os adolescentes consideram problemas importantes na vida (sem particularizar);
  • Oferecer a possibilidade do adolescente, na Escola, poder falar com alguém do corpo docente e não docente (sobretudo da psicologia/saúde mental);
  • Evitar uma atitude de alarme e repressora sobre as redes sociais e promover o sentido crítico sobre a sua utilização;
  • Promover um ambiente de escola que seja contentor e sobretudo que facilite a reflexão e a discussão;
  • Desenvolver/Promover atividades que prevejam o desafio e o risco calculado, tolerando as diferenças e o contraditório, porque é essencial aceitar (e integrar) os desafios e a transgressão na educação e não cair na tentação do controlo, da repressão e no moralismo, que geram um maior afastamento dos jovens.

 

SINAIS DE ALERTA (de uma forma geral e não específicos para este fenómeno, o qual não é possível isolar e particularizar no contexto da saúde mental):

  • Estar mais atento aos comportamentos de introversão/ ensimesmamento (muitas vezes os que passam mais despercebidos), como o isolamento social e a tristeza;
  • Mudanças no comportamento habitual de um adolescente, nomeadamente uma diminuição do seu rendimento escolar ou do comportamento;
  • Estar atento aos comportamentos de risco e às passagens ao ato, nomeadamente: consumos de substâncias (“drogas”, comportamentos de risco para a integridade física (automutilações e outros comportamentos de risco físico, como jogos radicais);
  • Valorizar sempre a verbalização de ideias de morte, por vezes erradamente tomadas “apenas” como chamadas de atenção.

 

ORIENTAÇÃO PARA SITUAÇÕES DE RISCO:

  • Ouvir, com privacidade, o adolescente;
  • Envolver sempre a família/cuidadores, mesmo com pontual quebra da confidencialidade em prol do superior interesse da criança (para situações em que se considere poder existir risco de vida);
  • Dar tratamento privado e circunscrito/limitado a cada situação, acautelando o efeito de contágio;
  • Orientar para o Gabinete de Psicologia da Escola de forma a otimizar a ligação com a saúde.
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